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Esse incômodo chamado ciúme

O controle é uma ilusão.

Por: Joselene Alvim
29/06/2026 às 08:00
Ciúme |
Ciúme | Foto: ThomasWolter - Pixabay

Bastou ver uma curtida inesperada na rede social do parceiro (a) para despertar inquietação ou um aperto no peito, acompanhado da inevitável pergunta: “Qual o interesse por trás dessa curtida?” 

Essa cena lhe parece familiar? 

Mesmo que o ciúme possa se manifestar de várias formas, como entre irmãos, nas amizades ou colegas de trabalho, quando abordamos esse assunto, geralmente o associamos aos relacionamentos afetivos. Apesar de ser um sentimento universal, o ciúme é um fenômeno complexo e difícil de definir. Algumas pessoas o interpretam como cuidado ou zelo, apoiando-se em frases como “quem ama tem ciúmes”, uma das crenças mais tóxicas sobre ciúmes, pois contribui para normalizar comportamentos possessivos.

O ciúme é uma resposta emocional diante de uma ameaça real ou imaginária, que envolve ansiedade, tristeza e até raiva. Ele costuma tocar em feridas antigas, como experiências de rejeição e abandono, despertando o medo de perder o afeto ou o lugar que ocupamos na vida do outro.

Frequentemente, a pessoa ciumenta é vista como alguém insegura e, dentre outros fatores, as redes sociais podem potencializar essa insegurança. Afinal, diariamente elas expõem imagens e informações de inúmeras pessoas, incentivando comparações e levando muitos a acreditar que os outros são mais interessantes ou atraentes. Isso pode desencadear a sensação de que os vínculos amorosos são frágeis e que as pessoas podem ser facilmente substituídas.

É claro que as redes sociais não são as vilãs. Há pessoas que navegam por essas plataformas sem se sentirem vulneráveis. Porém, para quem é inseguro, elas podem despertar gatilhos, favorecendo interpretações equivocadas. O cérebro passa, então, a buscar supostas “evidências” que alimentam a desconfiança e o medo de ser substituído. 

Seja ou não considerado o “tempero do amor”, como muitas vezes alimenta a cultura popular, o problema surge quando o ciúme provoca sofrimento intenso e passa a determinar o comportamento. Há quem considere intolerável a mínima possibilidade de ser trocado. Diante disso, passa a vigiar a rotina do outro, fiscalizando postagens, roupas, amizades e até a última visualização em aplicativos de mensagens. O ciúme patológico pode levar a comportamentos possessivos e controladores, que, em casos extremos, podem evoluir para agressões físicas e, em casos extremos, para homicídios.

Embora o controle seja uma ilusão, confiar no outro não significa que nunca haverá possibilidade de decepção. Por isso, é mais saudável investir no diálogo, reconhecer e nomear os próprios sentimentos e compartilhar experiências. Em relações saudáveis, há espaço para que cada um exerça sua individualidade. É essa liberdade que leva um casal a permanecer junto por escolha, e não por obrigação.

 Joselene Alvim
Joselene Alvim
Jô Alvim é psicóloga clínica. Mestre em Educação (UNESP). Especialista em Neuropsicologia (USP). Apaixonada por comportamento, é professora de graduação e pós-graduação.